Filosofia - O Belo na Antiguidade PDF Print E-mail
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Sunday, 13 September 2009 13:34

Durante muitos milênios, a história da arte se confundiu com a história da cultura, as coisas belas estavam integradas aos cultos religiosos, políticos e sociais, àws práticas da vida cotidiana e às técnicas que sustentavam a sobrevivência ou a conquista do espaço vital. (...)

Sócrates reflete sobre a tradição popular tipicamente grega que associa espontaneamente o belo e o bem (Kalokagathia) e reformula essa tradição com duas proposições análogas que explicitam esse elo como um vínculo natural entre beleza e bondade: o indivíduo que tem valor moral é suscetível de agir belamente, e vice-versa. No entanto, acrescenta Sócrates, esse elo não é dado - estabelece-se com vistas a algo outro: a utilidade, ou seja, é referido a uma finalidade.(...)

O que preocupa Platão, por exemplo, no diálogo Ion ou na República, são as inúmers possibilidades de abusar dos meios técnicos que a arte coloca nas mãos de pessoas nem semre confiáveis. Não é um acaso que as concepções de arte da Antiguidade confundam numa só palavra Tékhne e mekhané - as idéias (para nós distintas) de 'domínio técnico' e ' arte' como inovação ou criação. Antecipando a desconfiança que os modernos começaram a lançar contra o progresso tecnológico que dilapida a essência das inovaçõs artísticas e humanas, Platão levanta a voz contra o poder irresponsável de aedos e sofistas, que usam suas capacidades de declamação e de retórica para manipular os incautos, capturando as regiões inferiores da alma com engodos e burlando o raciocínio com falsas aparências.(...)

O discurso filosófico repousa sobre um sistema de argumentos e demonstrações que podem ser comprovados, ao apasso que os aber poético surge repentinamente como uma insiração, atribuída a um dom divino ou a uma possessão por um deus, isto é, a intervenções que o homem não pode controlar e que permanecem inacessíveis às formas regradas do conhecimento humano. Ao mesmo tempo, Platão insinua que essa elevação sagrada pode ser fingida e, com isso degradada por charlatões que exloram a credulidade e as paixões. A essa inspiração divina do ensusiasmo (possessão do poeta pelo deus que transmite um saber fora do alcance do hmem), Platão opõe os discursos racionais que refletem verdadeiros raciocínios e coerência linguística. Assim, platão restringe os sentidos dos termos téchne ou mekhané - que anteriormente designavam, sem distinção, todo tipo de habilidade: tecnológica ou artística, manual ou científica, prática u divinatória. Desse modo, Platão qualifica numa nova formulação teórica, a disciplina da investigação científica e filosófica que produz verdades seguras, em oposiçãoà poesia que sempre tende a degradar a pureza das revelações divinas em dúbias seduçõs que espreitam nossas paixões sensuais.(...)

A beleza é, assim, associada à idéia da revelação e à perfeição de um Deus-Criador ou de uma ordem cósmica preestabelecida.

Aristóteles parte das estéticas implícitas de Platão ou de Górgias, um dos mestres da retórica que enriqueceram graças à sua arte. Assim, ele já dispõe do vocabulário e das distinções conceituais que captam aspectos essenciais da imitação artística e os seus efeitos abusivos (Manipulação, ilusionismo, prestígio). (...) Chama a atenção para lugar mais discreto dos argumentos étics que fustigam os oabusos da arte e dos meios técnicos envolvidos na sua produção. Em a 'Poética' descarta como impróprio à arte o apreço pelos efeitos espetaculares da tragédia, os exageros de cenografia e figurino, o fascínio pelos efeitos violentos e pela tecnologia cênica da época, e renuncia a qualquer pathos retórico. Com a objetividade do naturalista, Aristóteles analisa as diferentes formas de arte e aplica a todas as mesmas categorias universais (meio, modo, etc.) que permitem evidenciar a relização de finaliddes próprias do gênero humano: a arte, para ele, contém um vínculo constitutivo com o prazer e o conhecimento, tem uma afinidade (não mais specificada) coma reflexão filosófica. Tratando das virtualidades ou potencialidades da experiência (dquilo que poderia ser), a mímesis poetica afsta-se tanto da historiografia quanto da ciência.(...) Aristóteles aproxima o belo e o bem, primeiro na medida em que ambos repousam sobre a justa medida; segundo, porque produzem um prazer que, embora individual, não é egoísta. Mas os valores estético e ético nunca se confundem totalmente. Mesmo quando seu conteúd for idêntico, ermanece uma diferença na forma, pois o belo é contemplado, ao passo que o bem se dá na ação.

(Trecho extraído do livro 'Estética' de Kathrin H. Rosenfield, coleção Filosofia Passo-a-passo n° 63, Jorge Zahar Editor, p. 10 a 22)

Last Updated on Sunday, 13 September 2009 13:56
 

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